Carta publicada na Carta do Leitor em 13/12/2001 - Jornal Tribuna da Bahia
Outro dia, ao passar em frente à Casa do Comércio, deparei-me com a placa da Rua Coronel Almerindo Rehem. Foi agradável a surpresa. Voltei aos tempos de juventude e lembrei do bom e amigo coronel. Amigo dos seus filhos, privei da boa amizade desta família. Voz forte, voz grossa, garbo militar, alegre, comunicador, amigo de todos, diplomata no tratar, assim conheci o coronel. Sertanejo de Aribicé, povoado do município de Euclides da Cunha, chegou a esta capital trazido pelo seu irmão, Oscar Nascimento Rehem. Analfabeto até os 18 anos, contava aos filhos que, para se alfabetizar, cursou uma escola na Barra. Todos os seus colegas eram crianças e somente ele, adulto. Nas aulas, quando errava uma letra, “ganhava” um bolo que a professora, usando palmatória, não desculpava. O bolo não doía, dizia ele, porém, a vaia dos pequenos colegas era insuportável. Estudou, aprendeu, pegou o amor pela leitura e não parou mais de ler, fez o seu conhecimento. Já na Polícia Militar, como soldado, trabalhou com afinco, entrou para a banda de música, tocando oboé. O maestro não gostava dele e – contava ele – ao passar em revista, invariavelmente, pisava nos seus pés. Largou a banda, continuou a sua vida na carreira militar e foi servir, comandando a Guarda de Polícia, como sargento, onde foi descoberto pelo governador Góes Calmon, que o promoveu a tenente, em face do seu destacado desempenho. Na sua corporação, galgou todos os cargos, sempre imprimindo a sua maneira característica de comandar, chegando por fim ao mais alto posto de coronel. Foi comandante da Guarda Civil, chefe do Estado-Maior e comandante da Polícia, chefe da Casa Militar do interventor Landulfo Alves e dos governadores Antonio Balbino e Lomanto Júnior. Foi agraciado com muitas condecorações pelas Forças Armadas, sempre pelo seu destacado desempenho nos diversos cargos exercidos.
A denominação da rua com o nome do coronel, foi uma homenagem do vereador Ivan Ramos, que sendo seu vizinho - morou na casa em frente - teve singular oportunidade de conhecê-lo intimamente.
O elogiável gesto de Ivan Ramos resgata uma dívida da cidade a um dos seus mais ilustres moradores, que com sua vida exemplar, sempre cultuando a amizade sincera, transformou-se num verdadeiro marco de dignidade e honestidade.
José Osvaldo Alves (Jornalista)
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010
domingo, 21 de junho de 2009
DISCURSO DE DESPEDIDA
Meus amigos,
Meditei muito sobre o que dizer a vocês neste instante. Tudo o que vinha à minha mente parecia não satisfazer. Sempre insuficiente. Convenci-me então que seria impossível transformar em palavras tudo aquilo que sinto.
Liguei o rádio e coincidentemente ouvi Caetano Veloso a cantar a sua poesia, provocando em mim um momentâneo sentimento de inveja. Senti-me pequeno demais diante deste gesto de vocês, e sem palavras à altura para retribuir. Mas, se amizade é um encontro no meio do caminho, vocês não poderiam esperar de mim aquilo que não posso dar. Um simples olhar pode significar muito mais do que um monte de palavras. Por mais que eu diga, nunca ficarei satisfeito, nunca transmitirei exatamente aquilo que gostaria.
Interessante como os opostos se atraem. Estamos reunidos em virtude da volta e vêm-me à mente os momentos que antecederam a nossa vinda. Lembro-me da última noite que passamos em Salvador. Perdi o sono e comecei a analisar o passado e fazer conjecturas sobre o futuro. Tudo estava arrumado para a viagem, e eu, que nunca imaginei sair de Salvador, estava prestes a enfrentar um mundo totalmente desconhecido. Olhei para a minha mulher e o meu filho Serge. Ambos dormiam e este último, na inocência dos seus cinco meses, nem sequer pôde ser consultado sobre a decisão tomada. Veio-me então uma profunda indecisão. Afinal, seríamos felizes? Valeria à pena partir do conhecido para o obscuro? Que tipo de pessoas viríamos a conhecer? E amigos, quantos e como?
Lembrei-me então do meu melhor amigo, meu pai, já falecido, mas sempre vivo em nossas mentes, pela grandeza da sua humildade, seu coração, seus gestos e seus ensinamentos. Vi com que amadurecimento encarava estar a nossa casa cheia ou vazia de pessoas, coincidindo com os períodos nos quais ocupava, ou não, cargos de relevância. Como toda criança, tinha a maior admiração por ele. Só que esta admiração ainda cresce à medida em que os anos passam. Com ele aprendi que devemos assumir cargos nos preparando para a saída. Devemos aceitá-los sempre imaginando-os como roupas feitas para pessoas maiores do que nós, e prepararmo-nos para, a qualquer momento, quando da chegada do seu dono, retirá-las sem sentir a sensação de que estamos despidos. Afinal, aquela roupa não nos pertence e coube-nos vesti-la somente durante determinado tempo.
A noite arrastava-se e, por fim, entre cochilos constatei que havia amanhecido. Era o momento de seguir para o aeroporto. Lá, nem mesmo os pêsames pela mudança faltaram. Coração partido de saudade, apreensivo, mas ainda assim, havia lugar para esperança e fé. Ione, coitada, quase desidratada de tanto chorar. Chegamos a Brasilia e fui imediatamente absorvido pelas novas atividades. De repente vi-me diante de muita gente também apreensiva, e , naturalmente curiosa quanto à minha pessoa. Era a minha posse como Chefe de Gabinete da Secretaria da Agricultura e Produção e eu pensei : o que estaria fazendo no meio de tanta gente desconhecida? Confesso, hoje, que tive vontade de tomar o primeiro avião e retornar à minha cidade natal. Pior que tudo é que todos esperavam as minhas primeiras palavras e eu quase nada tinha a dizer. Preferi, naquela oportunidade, afirmar laconicamente que o meu discurso “seria o mais longo de todos, com duração prevista para cinco anos, e transmitido no dia-a-dia de convívio”. É verdade que não cheguei aos cinco anos. Completei 2 anos e 7 meses no dia quatro próximo passado. E o que não consegui dizer, neste período, não é agora, em poucos minutos, que vou ter êxito. Considerem como discursos de posse e despedida, todos os atos por mim praticados. Por eles deverei ser julgado e não tenho tempo, agora, para fazer remendos.
Assumo todos os meus erros. Brasilia, para mim, é uma passagem inesquecível, e se hoje tivesse que tomar nova decisão, sem dúvida, seria a mesma: Viria! Se é verdade que passei dificílimas horas, somente um momento como este compensaria ter vindo. Nada mais de positivo seria necessário. Bastaria agora! Três sentimentos talvez melhor representem a síntese deste instante: emoção, esperança e saudade.
Sobre cada um deles escolhi um pensamento o os transmito a vocês como mensagem:
Emoção: “Aquele que transforma em beleza todas as emoções, sejam de melancolia, de tristeza, prazer ou dor, vive em perpétua alegria.” José Pereira da Graça Aranha
Esperança: “Esperança é uma mão misteriosa que nos aproxima do que desejamos e nos afasta do que temos.” Severo Catalina
Saudade: “O perfume da saudade é como o de certas flores, que só se percebe quando de longe o recebemos. Se, iludidos o tentamos aspirar de perto, dissipa-se.” Julio Diniz
Este momento jamais será esquecido, pois, quando deixo, definitivamente, a presidência da Fundação Zoobotânica do Distrito Federal, definitivamente vocês ingressam em nossos corações. E isso só foi possível através da confiança em mim depositada pelo secretário Pedro Dantas e pelo governador Elmo Farias, aos quais registro os meus profundos agradecimentos.
Quero, por fim, agradecer especialmente as bondosas palavras há pouco proferidas pelo Dr. Jésus Manzan, representando todos os servidores da Fundação, fazendo minhas as palavras do Ex-Presidente Emilio Garrastazu Médici, ditas recentemente, quando da passagem dos seus 71 anos: “Esta homenagem é mais pela generosidade de vocês do que pelo merecimento do homenageado.”
Muito obrigado!
Discurso proferido por Denilson Rehem, ao deixar a presidência da Fundação Zoobotânica do Distrito Federal – FZDF. (Churrascaria do Lago – Brasilia/DF, 10 de dezembro de 1976)
Meditei muito sobre o que dizer a vocês neste instante. Tudo o que vinha à minha mente parecia não satisfazer. Sempre insuficiente. Convenci-me então que seria impossível transformar em palavras tudo aquilo que sinto.
Liguei o rádio e coincidentemente ouvi Caetano Veloso a cantar a sua poesia, provocando em mim um momentâneo sentimento de inveja. Senti-me pequeno demais diante deste gesto de vocês, e sem palavras à altura para retribuir. Mas, se amizade é um encontro no meio do caminho, vocês não poderiam esperar de mim aquilo que não posso dar. Um simples olhar pode significar muito mais do que um monte de palavras. Por mais que eu diga, nunca ficarei satisfeito, nunca transmitirei exatamente aquilo que gostaria.
Interessante como os opostos se atraem. Estamos reunidos em virtude da volta e vêm-me à mente os momentos que antecederam a nossa vinda. Lembro-me da última noite que passamos em Salvador. Perdi o sono e comecei a analisar o passado e fazer conjecturas sobre o futuro. Tudo estava arrumado para a viagem, e eu, que nunca imaginei sair de Salvador, estava prestes a enfrentar um mundo totalmente desconhecido. Olhei para a minha mulher e o meu filho Serge. Ambos dormiam e este último, na inocência dos seus cinco meses, nem sequer pôde ser consultado sobre a decisão tomada. Veio-me então uma profunda indecisão. Afinal, seríamos felizes? Valeria à pena partir do conhecido para o obscuro? Que tipo de pessoas viríamos a conhecer? E amigos, quantos e como?
Lembrei-me então do meu melhor amigo, meu pai, já falecido, mas sempre vivo em nossas mentes, pela grandeza da sua humildade, seu coração, seus gestos e seus ensinamentos. Vi com que amadurecimento encarava estar a nossa casa cheia ou vazia de pessoas, coincidindo com os períodos nos quais ocupava, ou não, cargos de relevância. Como toda criança, tinha a maior admiração por ele. Só que esta admiração ainda cresce à medida em que os anos passam. Com ele aprendi que devemos assumir cargos nos preparando para a saída. Devemos aceitá-los sempre imaginando-os como roupas feitas para pessoas maiores do que nós, e prepararmo-nos para, a qualquer momento, quando da chegada do seu dono, retirá-las sem sentir a sensação de que estamos despidos. Afinal, aquela roupa não nos pertence e coube-nos vesti-la somente durante determinado tempo.
A noite arrastava-se e, por fim, entre cochilos constatei que havia amanhecido. Era o momento de seguir para o aeroporto. Lá, nem mesmo os pêsames pela mudança faltaram. Coração partido de saudade, apreensivo, mas ainda assim, havia lugar para esperança e fé. Ione, coitada, quase desidratada de tanto chorar. Chegamos a Brasilia e fui imediatamente absorvido pelas novas atividades. De repente vi-me diante de muita gente também apreensiva, e , naturalmente curiosa quanto à minha pessoa. Era a minha posse como Chefe de Gabinete da Secretaria da Agricultura e Produção e eu pensei : o que estaria fazendo no meio de tanta gente desconhecida? Confesso, hoje, que tive vontade de tomar o primeiro avião e retornar à minha cidade natal. Pior que tudo é que todos esperavam as minhas primeiras palavras e eu quase nada tinha a dizer. Preferi, naquela oportunidade, afirmar laconicamente que o meu discurso “seria o mais longo de todos, com duração prevista para cinco anos, e transmitido no dia-a-dia de convívio”. É verdade que não cheguei aos cinco anos. Completei 2 anos e 7 meses no dia quatro próximo passado. E o que não consegui dizer, neste período, não é agora, em poucos minutos, que vou ter êxito. Considerem como discursos de posse e despedida, todos os atos por mim praticados. Por eles deverei ser julgado e não tenho tempo, agora, para fazer remendos.
Assumo todos os meus erros. Brasilia, para mim, é uma passagem inesquecível, e se hoje tivesse que tomar nova decisão, sem dúvida, seria a mesma: Viria! Se é verdade que passei dificílimas horas, somente um momento como este compensaria ter vindo. Nada mais de positivo seria necessário. Bastaria agora! Três sentimentos talvez melhor representem a síntese deste instante: emoção, esperança e saudade.
Sobre cada um deles escolhi um pensamento o os transmito a vocês como mensagem:
Emoção: “Aquele que transforma em beleza todas as emoções, sejam de melancolia, de tristeza, prazer ou dor, vive em perpétua alegria.” José Pereira da Graça Aranha
Esperança: “Esperança é uma mão misteriosa que nos aproxima do que desejamos e nos afasta do que temos.” Severo Catalina
Saudade: “O perfume da saudade é como o de certas flores, que só se percebe quando de longe o recebemos. Se, iludidos o tentamos aspirar de perto, dissipa-se.” Julio Diniz
Este momento jamais será esquecido, pois, quando deixo, definitivamente, a presidência da Fundação Zoobotânica do Distrito Federal, definitivamente vocês ingressam em nossos corações. E isso só foi possível através da confiança em mim depositada pelo secretário Pedro Dantas e pelo governador Elmo Farias, aos quais registro os meus profundos agradecimentos.
Quero, por fim, agradecer especialmente as bondosas palavras há pouco proferidas pelo Dr. Jésus Manzan, representando todos os servidores da Fundação, fazendo minhas as palavras do Ex-Presidente Emilio Garrastazu Médici, ditas recentemente, quando da passagem dos seus 71 anos: “Esta homenagem é mais pela generosidade de vocês do que pelo merecimento do homenageado.”
Muito obrigado!
Discurso proferido por Denilson Rehem, ao deixar a presidência da Fundação Zoobotânica do Distrito Federal – FZDF. (Churrascaria do Lago – Brasilia/DF, 10 de dezembro de 1976)
segunda-feira, 15 de junho de 2009
HOMENAGEM AO MEU AVÔ
Confesso que às vezes fico imaginando como deve ser a vida depois da morte, como será viver no céu? Sem problemas, sem confusão, sem desentendimentos, sem bebidas ou cigarros, sem corridas de motos ou jogos de cartas, sem possibilidade de ler a revista playboy ou sexy, creio que não vou me acostumar com essa rotina pacata, tranqüila e serena.
Também não sei se quando morrer terei um lugar garantido por lá, porém estou tentando fazer minha parte por aqui, confesso que é difícil, mais na hora do balanço geral tenho quase certeza que terei saldo positivo e ingresso garantido para acesso na paz celestial.
Algum tempo atrás tinha duvidas se iria me adaptar sem bebidas, cigarros, motos ou meu joguinho de baralho, cheguei a pensar e imaginar que melhor seria a opção pela farra noturna, bagunça e coisas do ramo.
Depois de muito pensar, pude concluir que o principal, atual e decisivo motivo pelo qual eu gostaria de ir viver no céu é ter a oportunidade de reencontrar com um homem que muito marcou minha vida, o coronel Almerindo Rehem, meu avô com muito orgulho.
Honestidade, dignidade, solidariedade humana e amor a família, foram seus maiores exemplos aqui na terra, sempre sorridente, era para todos os amigos um paradigma da felicidade, amizade, fidelidade e alegria.
Lembro-me, com muita emoção, do nosso ultimo encontro. Era o dia 08/04/1969 e ele muito enfermo, na cama, acordou muito nervoso e chorando, como a implorar por alguma coisa que ninguém conseguia decifrar. Foi um dia longo, tenso e doloroso para toda família, até por volta das 16:00 horas quando cheguei em frente ao seu leito e num alto grito de emoção ele conseguiu balbuciar: “CAMAGO”.
Todos imediatamente entenderam que meu querido avô sabia, ninguém sabe como, que era o dia do meu aniversário.
Perdi um avô maravilhoso aqui na terra, mas seguramente, neste exato instante, ao lado do também coronel Antônio Guimarães (meu sogro), está ele em reunião pregando e difundindo o amor verdadeiro; e Jesus, assistindo a tudo, dirá por certo, sorrindo, a São Pedro: “Quando o neto do coronel Almerindo Rehem chegar, pode deixar entrar”.
Carlos Magno Rehem Dantas (Camago)
Salvador/BA, 15/06/2009
Também não sei se quando morrer terei um lugar garantido por lá, porém estou tentando fazer minha parte por aqui, confesso que é difícil, mais na hora do balanço geral tenho quase certeza que terei saldo positivo e ingresso garantido para acesso na paz celestial.
Algum tempo atrás tinha duvidas se iria me adaptar sem bebidas, cigarros, motos ou meu joguinho de baralho, cheguei a pensar e imaginar que melhor seria a opção pela farra noturna, bagunça e coisas do ramo.
Depois de muito pensar, pude concluir que o principal, atual e decisivo motivo pelo qual eu gostaria de ir viver no céu é ter a oportunidade de reencontrar com um homem que muito marcou minha vida, o coronel Almerindo Rehem, meu avô com muito orgulho.
Honestidade, dignidade, solidariedade humana e amor a família, foram seus maiores exemplos aqui na terra, sempre sorridente, era para todos os amigos um paradigma da felicidade, amizade, fidelidade e alegria.
Lembro-me, com muita emoção, do nosso ultimo encontro. Era o dia 08/04/1969 e ele muito enfermo, na cama, acordou muito nervoso e chorando, como a implorar por alguma coisa que ninguém conseguia decifrar. Foi um dia longo, tenso e doloroso para toda família, até por volta das 16:00 horas quando cheguei em frente ao seu leito e num alto grito de emoção ele conseguiu balbuciar: “CAMAGO”.
Todos imediatamente entenderam que meu querido avô sabia, ninguém sabe como, que era o dia do meu aniversário.
Perdi um avô maravilhoso aqui na terra, mas seguramente, neste exato instante, ao lado do também coronel Antônio Guimarães (meu sogro), está ele em reunião pregando e difundindo o amor verdadeiro; e Jesus, assistindo a tudo, dirá por certo, sorrindo, a São Pedro: “Quando o neto do coronel Almerindo Rehem chegar, pode deixar entrar”.
Carlos Magno Rehem Dantas (Camago)
Salvador/BA, 15/06/2009
sexta-feira, 5 de junho de 2009
HOMENAGEM
Carta publicada no Espaço do Leitor em 22/12/2001 - Jornal A TARDE
Outro dia, ao passar em frente à Casa do Comércio, deparei-me com a placa da Rua Coronel Almerindo Rehem. Foi agradável a surpresa. Voltei aos tempos de juventude e lembrei do bom e amigo coronel. Amigo dos seus filhos, privei da boa amizade desta família. Voz forte, voz grossa, garbo militar, alegre, comunicador, amigo de todos, diplomata no tratar, assim conheci o coronel. Sertanejo de Aribicé, povoado do município de Euclides da Cunha, chegou a esta capital trazido pelo seu irmão, Oscar Nascimento Rehem. Analfabeto até os 18 anos, contava aos filhos que, para se alfabetizar, cursou uma escola na Barra. Todos os seus colegas eram crianças e somente ele, adulto. Nas aulas, quando errava uma letra, “ganhava” um bolo que a professora, usando palmatória, não desculpava. O bolo não doía, dizia ele, porém, a vaia dos pequenos colegas era insuportável. Estudou, aprendeu, pegou o amor pela leitura e não parou mais de ler, fez o seu conhecimento. Já na Polícia Militar, como soldado, trabalhou com afinco, entrou para a banda de música, tocando oboé. O maestro não gostava dele e – contava ele – ao passar em revista, invariavelmente, pisava nos seus pés. Largou a banda, continuou a sua vida na carreira militar e foi servir, comandando a Guarda de Polícia, como sargento, onde foi descoberto pelo governador Góes Calmon, que o promoveu a tenente, em face do seu destacado desempenho. Na sua corporação, galgou todos os cargos, sempre imprimindo a sua maneira característica de comandar, chegando por fim ao mais alto posto de coronel. Foi comandante da Guarda Civil, chefe do Estado-Maior e comandante da Polícia, chefe da Casa Militar do interventor Landulfo Alves e dos governadores Antonio Balbino e Lomanto Júnior. Foi agraciado com muitas condecorações pelas Forças Armadas, sempre pelo seu destacado desempenho nos diversos cargos exercidos.
José Osvaldo Alves (Jornalista, Salvador-BA)
Outro dia, ao passar em frente à Casa do Comércio, deparei-me com a placa da Rua Coronel Almerindo Rehem. Foi agradável a surpresa. Voltei aos tempos de juventude e lembrei do bom e amigo coronel. Amigo dos seus filhos, privei da boa amizade desta família. Voz forte, voz grossa, garbo militar, alegre, comunicador, amigo de todos, diplomata no tratar, assim conheci o coronel. Sertanejo de Aribicé, povoado do município de Euclides da Cunha, chegou a esta capital trazido pelo seu irmão, Oscar Nascimento Rehem. Analfabeto até os 18 anos, contava aos filhos que, para se alfabetizar, cursou uma escola na Barra. Todos os seus colegas eram crianças e somente ele, adulto. Nas aulas, quando errava uma letra, “ganhava” um bolo que a professora, usando palmatória, não desculpava. O bolo não doía, dizia ele, porém, a vaia dos pequenos colegas era insuportável. Estudou, aprendeu, pegou o amor pela leitura e não parou mais de ler, fez o seu conhecimento. Já na Polícia Militar, como soldado, trabalhou com afinco, entrou para a banda de música, tocando oboé. O maestro não gostava dele e – contava ele – ao passar em revista, invariavelmente, pisava nos seus pés. Largou a banda, continuou a sua vida na carreira militar e foi servir, comandando a Guarda de Polícia, como sargento, onde foi descoberto pelo governador Góes Calmon, que o promoveu a tenente, em face do seu destacado desempenho. Na sua corporação, galgou todos os cargos, sempre imprimindo a sua maneira característica de comandar, chegando por fim ao mais alto posto de coronel. Foi comandante da Guarda Civil, chefe do Estado-Maior e comandante da Polícia, chefe da Casa Militar do interventor Landulfo Alves e dos governadores Antonio Balbino e Lomanto Júnior. Foi agraciado com muitas condecorações pelas Forças Armadas, sempre pelo seu destacado desempenho nos diversos cargos exercidos.
José Osvaldo Alves (Jornalista, Salvador-BA)
terça-feira, 2 de junho de 2009
sexta-feira, 29 de maio de 2009
DISCURSO INAUGURAL DE ESTANDE
Discurso proferido pelo eng° Dilson Carlos Rehem, filho mais velho do cel. Almerindo, na inauguração de estande de tiro ao alvo - Brasilia/DF, 30/09/1983
Exm° Sr. General Darcy Lázaro, senhores atiradores, senhora atiradora, meus senhores, minhas senhoras,
A nossa casa está honrada com a presença dos senhores. Esta reunião tem como principal objetivo a inauguração do Estande de Tiro ao Alvo Cel. Almerindo Rehem.
Esta homenagem que estamos prestando é ao meu pai, o meu coronel. Este homem nasceu em Aribicé, município de Euclides da Cunha, na Bahia, em 26/05/1902. A sua infância passou nesta longínqua área, distante 600 km de Salvador, sem ter as mínimas facilidades de se alfabetizar. Neste período da sua vida, muitas vezes ia à caça com badogue, ou estilingue, tentando, ao abater o pássaro, amenizar a fome que lhe corroia as entranhas. Muitas vezes me afirmou: "Tive que comer terra!". Conseguiu sobreviver, e aos 14 anos, o seu irmão, Oscar, trouxe-o para a capital.
Chegando em Salvador, analfabeto, aumentou a idade e sentou praça na briosa Pollícia Militar da Bahia. Desejava vencer e para isso estava disposto a sacrifícios. Imediatamente matriculou-se numa escola e me relatava nos bons diálogos que mantínhamos: "Fui aprender a ler numa escola, no bairro da Barra, com crianças e uma professora, já sem paciência, que sempre utilizava, quando eu errava as letras enormes que me apontava, a palmatória. Sentia, ao receber o impacto, a dor física do castigo e a dor moral, das vaias das crianças, os meus colegas. Inicialmente, esta horrivel situação foi penosa, antes de me conscientizar que estava enfrentando um desafio. Venci! Grande alegria! Aprendi a ler".
Como soldado raso, fez todos os trabalhos de todo recruta. Conseguiu se transferir, quando cabo, para a Banda de Música.
Contava-me: "Soube que estavam abertas as inscrições para a Banda, candidatei-me e ingressei. O maestro encheu-se de antipatia à primeira vista, e logo entregou-me um instrumento que jamais tinha visto em minha vida, o oboé, completando com voz irritada e autoritária: 'aprenda a tocar'. Não fui feliz nestes instantes da minha carreira, o maestro punha-me sempre à frente, e, em todas as vezes que passava por mim, propositadamente, pisava nas minhas botinas. Deixei a banda".
Já quando sargento, comandou a Guarda do Palácio, na época do governador Góes Calmon. Cumprindo com orgulho e abnegação os seus deveres, além do seu bonito porte, voz vibrante e bastante grossa, chamou a atenção do governador, e este o promoveu a oficial, por merecimento.
Falava-me: "Soube da notícia por um colega quando estava num bonde, ao voltar para casa. A minha alegria era imensa, dava o grande salto, tornara-me oficial. Foi talves a primeira e grande satisfação da minha vida, transbordava de felicidade. Passado alguns dias, já fardado como tenente, pude devolver o mesmo tratamento recebido por um sargento veterano, que sempre, ao encontrar-me sentado em um dos tres primeiros bancos do bonde, mandava eu procurar o meu lugar. Esse sargento, ao ver-me, já como seu superior, arregalou os olhos, levantou-se e bateu continência. Respondi e disse a ele baixinho: procure o seu lugar. Após esse fato tornamo-nos bons amigos".
Na sua carreira militar assumiu todos os cargos e funções, fazendo sempre marcar a sua presença no seu desempenho com capacidade, e o que é mais importante, considerado sempre justo, capaz e honesto. Comandou a Guarda Civil, comandou a Polícia Militar, foi chefe da Casa Militar em tres períodos diversos: com o interventor Landulfo Alves, e com os governadores Antonio Balbino e Lomanto Júnior. Teve sempre como objetivo na sua vida fazer amigos. Logrou êxito!
Até hoje, ao dizer meu nome - e isto acontece com toda a família - perguntam sempre: "você é parente do cel. Almerindo Rehem?" Ao responder "sou filho", logo o tratamento se modifica, e com expressão bondosa, querendo ajudar, exclamam: "Foi um grande amigo meu! O que você deseja?"
Transmitiu à nossa família a sua filosofia de vida e nos ensinou: "A palavra dada é para ser honrada. Não é necessário documento assinado para cumprirmos compromissos. Faça amigos, tê-los será a sua maior riqueza. Seja justo, seja honesto, e enfrente os problemas."
Este homem, cel. Almerindo Rehem, no dizer de muitos, um militar e um diplomata, me enche de orgulho e prazer ao sempre afirmar "sou seu filho!". Ele já nos deixou. Partiu desde 1969.
Em 30 de novembro de 1932 estava casado com minha mãe, Leonor Sampaio Rehem. Hoje, quando se comemora os 51 anos de casamento, data feliz e de alegria, inauguro, para as competições de ar comprimido, entre amigos, o Estande Cel. Almerindo Rehem, como uma homenagem e agradecimento, pelos ensinamentos de vida e educação que proporcionou a toda a sua família.
Muito obrigado meus senhores.
Exm° Sr. General Darcy Lázaro, senhores atiradores, senhora atiradora, meus senhores, minhas senhoras,
A nossa casa está honrada com a presença dos senhores. Esta reunião tem como principal objetivo a inauguração do Estande de Tiro ao Alvo Cel. Almerindo Rehem.
Esta homenagem que estamos prestando é ao meu pai, o meu coronel. Este homem nasceu em Aribicé, município de Euclides da Cunha, na Bahia, em 26/05/1902. A sua infância passou nesta longínqua área, distante 600 km de Salvador, sem ter as mínimas facilidades de se alfabetizar. Neste período da sua vida, muitas vezes ia à caça com badogue, ou estilingue, tentando, ao abater o pássaro, amenizar a fome que lhe corroia as entranhas. Muitas vezes me afirmou: "Tive que comer terra!". Conseguiu sobreviver, e aos 14 anos, o seu irmão, Oscar, trouxe-o para a capital.
Chegando em Salvador, analfabeto, aumentou a idade e sentou praça na briosa Pollícia Militar da Bahia. Desejava vencer e para isso estava disposto a sacrifícios. Imediatamente matriculou-se numa escola e me relatava nos bons diálogos que mantínhamos: "Fui aprender a ler numa escola, no bairro da Barra, com crianças e uma professora, já sem paciência, que sempre utilizava, quando eu errava as letras enormes que me apontava, a palmatória. Sentia, ao receber o impacto, a dor física do castigo e a dor moral, das vaias das crianças, os meus colegas. Inicialmente, esta horrivel situação foi penosa, antes de me conscientizar que estava enfrentando um desafio. Venci! Grande alegria! Aprendi a ler".
Como soldado raso, fez todos os trabalhos de todo recruta. Conseguiu se transferir, quando cabo, para a Banda de Música.
Contava-me: "Soube que estavam abertas as inscrições para a Banda, candidatei-me e ingressei. O maestro encheu-se de antipatia à primeira vista, e logo entregou-me um instrumento que jamais tinha visto em minha vida, o oboé, completando com voz irritada e autoritária: 'aprenda a tocar'. Não fui feliz nestes instantes da minha carreira, o maestro punha-me sempre à frente, e, em todas as vezes que passava por mim, propositadamente, pisava nas minhas botinas. Deixei a banda".
Já quando sargento, comandou a Guarda do Palácio, na época do governador Góes Calmon. Cumprindo com orgulho e abnegação os seus deveres, além do seu bonito porte, voz vibrante e bastante grossa, chamou a atenção do governador, e este o promoveu a oficial, por merecimento.
Falava-me: "Soube da notícia por um colega quando estava num bonde, ao voltar para casa. A minha alegria era imensa, dava o grande salto, tornara-me oficial. Foi talves a primeira e grande satisfação da minha vida, transbordava de felicidade. Passado alguns dias, já fardado como tenente, pude devolver o mesmo tratamento recebido por um sargento veterano, que sempre, ao encontrar-me sentado em um dos tres primeiros bancos do bonde, mandava eu procurar o meu lugar. Esse sargento, ao ver-me, já como seu superior, arregalou os olhos, levantou-se e bateu continência. Respondi e disse a ele baixinho: procure o seu lugar. Após esse fato tornamo-nos bons amigos".
Na sua carreira militar assumiu todos os cargos e funções, fazendo sempre marcar a sua presença no seu desempenho com capacidade, e o que é mais importante, considerado sempre justo, capaz e honesto. Comandou a Guarda Civil, comandou a Polícia Militar, foi chefe da Casa Militar em tres períodos diversos: com o interventor Landulfo Alves, e com os governadores Antonio Balbino e Lomanto Júnior. Teve sempre como objetivo na sua vida fazer amigos. Logrou êxito!
Até hoje, ao dizer meu nome - e isto acontece com toda a família - perguntam sempre: "você é parente do cel. Almerindo Rehem?" Ao responder "sou filho", logo o tratamento se modifica, e com expressão bondosa, querendo ajudar, exclamam: "Foi um grande amigo meu! O que você deseja?"
Transmitiu à nossa família a sua filosofia de vida e nos ensinou: "A palavra dada é para ser honrada. Não é necessário documento assinado para cumprirmos compromissos. Faça amigos, tê-los será a sua maior riqueza. Seja justo, seja honesto, e enfrente os problemas."
Este homem, cel. Almerindo Rehem, no dizer de muitos, um militar e um diplomata, me enche de orgulho e prazer ao sempre afirmar "sou seu filho!". Ele já nos deixou. Partiu desde 1969.
Em 30 de novembro de 1932 estava casado com minha mãe, Leonor Sampaio Rehem. Hoje, quando se comemora os 51 anos de casamento, data feliz e de alegria, inauguro, para as competições de ar comprimido, entre amigos, o Estande Cel. Almerindo Rehem, como uma homenagem e agradecimento, pelos ensinamentos de vida e educação que proporcionou a toda a sua família.
Muito obrigado meus senhores.
CORONEL ALMERINDO
Carta publicada no Espaço do Leitor em 31/05/2001 - Jornal A Tarde
Transcorreu no último dia 26 o centenário de nascimento do Cel. Almerindo do Nascimento Rehem. Ingressou na PM como contratado. Dez anos depois já era 2° tenente e foi a 1° por relevantes serviços, e daí por merecimento ascendeu até o comando-geral da PM. Apesar de incursionar, nos anos 25/30, numa prodigiosa epopéia pelos sertões adentro, onde o "papo-amarelo" descansava nas forquilhas espreitando os soldados da lei e no comando de um pelotão de cavalaria, sufocando um motim, era a réplica de Bonaparte à frente do "Batalhão Sagrado", nasceu para relações públicas. Era um homem bom, alegre e amigueiro. Serviu no gabinete do governador Lomanto Júnior como chefe da Casa Militar, onde se dava bem com todos. Admirava a competência do Dr. Cruz Rios, chefe da Casa Civil, do Dr. José Corvelo, assessor de imprensa, e pelo recato, paciência e fina educação, gostava do jornalista Britto Cunha. Só o vi zangado uma vez, quando o governador pediu ao comandante para promover um sargento do Palácio, apelidado de Cardeal, e o comandante alegou que não podia porque já havia se comprometido com o comandante da Vila de promover o seu motorista. Como era homem de soluções, deu nó na fumaça e os dois foram promovidos.
Ao me apresentar para servir como ajudante-de-ordens do governador Lomanto, depois de quase uma hora de aula, disse-me: "Você vai ver que gabinete é uma escravidão e, com essa pose toda, vai ser apenas um ordenança, me...lho...ra...do". No fim, pegando um par de requife me entregou alertando: "Isto aqui é um alamar, símbolo da fidelidade; se, algum segundo, pensar em trair nosso chefe, deixe-o ou se enforque". Com ele, aprendi boas lições e lhe devo gratidão.
Faz anos que viajou, deixando saudades, e não deu mais notícias; só sei que não morreu, porque quem sempre é lembrado, nunca morre.
Humberto Costa Sturaro (Cel. PM/RR - Rua Prof. Palma n° 15 - Barbalho - Salvador-BA)
Transcorreu no último dia 26 o centenário de nascimento do Cel. Almerindo do Nascimento Rehem. Ingressou na PM como contratado. Dez anos depois já era 2° tenente e foi a 1° por relevantes serviços, e daí por merecimento ascendeu até o comando-geral da PM. Apesar de incursionar, nos anos 25/30, numa prodigiosa epopéia pelos sertões adentro, onde o "papo-amarelo" descansava nas forquilhas espreitando os soldados da lei e no comando de um pelotão de cavalaria, sufocando um motim, era a réplica de Bonaparte à frente do "Batalhão Sagrado", nasceu para relações públicas. Era um homem bom, alegre e amigueiro. Serviu no gabinete do governador Lomanto Júnior como chefe da Casa Militar, onde se dava bem com todos. Admirava a competência do Dr. Cruz Rios, chefe da Casa Civil, do Dr. José Corvelo, assessor de imprensa, e pelo recato, paciência e fina educação, gostava do jornalista Britto Cunha. Só o vi zangado uma vez, quando o governador pediu ao comandante para promover um sargento do Palácio, apelidado de Cardeal, e o comandante alegou que não podia porque já havia se comprometido com o comandante da Vila de promover o seu motorista. Como era homem de soluções, deu nó na fumaça e os dois foram promovidos.
Ao me apresentar para servir como ajudante-de-ordens do governador Lomanto, depois de quase uma hora de aula, disse-me: "Você vai ver que gabinete é uma escravidão e, com essa pose toda, vai ser apenas um ordenança, me...lho...ra...do". No fim, pegando um par de requife me entregou alertando: "Isto aqui é um alamar, símbolo da fidelidade; se, algum segundo, pensar em trair nosso chefe, deixe-o ou se enforque". Com ele, aprendi boas lições e lhe devo gratidão.
Faz anos que viajou, deixando saudades, e não deu mais notícias; só sei que não morreu, porque quem sempre é lembrado, nunca morre.
Humberto Costa Sturaro (Cel. PM/RR - Rua Prof. Palma n° 15 - Barbalho - Salvador-BA)
quarta-feira, 27 de maio de 2009
ALMERINDO REHEM
Crônica do jornalista e escritor Guido Guerra, publicado no Diário de Notícias em 16/04/1969
Conquanto seu vizinho, eu o via de longe e à distância, apoiado sobre a janela, cabisbaixo, modo, sem gestos, sem espantos. Calado, sofrendo sem ais e sem protestos. Olhava os que passavam e os cumprimentava, com o habitual aceno com a mão - um adeus que era uma despedida. E olhava-nos, com aquele olhar triste, muito triste, que era só dor. Já não falava. Emudecera, desde o último derrame. Era só aquela amargura no olhar triste, que era um grito de dor a cortar corações. Morreu, ontem, plena madrugada. Era o último suspiro, era o adeus definitivo do homem bom. Deitado, movendo-me na cama, sono intranquilo, pensei comigo:
- Está morto.
Depois, não ouvi mais nada. Nem passos apreensivos nem soluços de dor, nem preces nem o ruído do telefone, chamando, pedindo notícias. Saí, madrugada adentro. Nunca suportei a idéia de vê-lo indiferente aos que o cercavam, deitado, dentro do esquife, os olhos parados insensíveis ao estranho mundo que o fascinava, ao qual tanto amara. Habituara-me a vê-lo, sorrindo, cheio de otimismo, de entusiasmo e amor à vida, voz grossa e grave, a gargalhada gostosa, histórias e casos de espantar, que contava, as lutas que travara, o amor com que o coronel Almerindo Rehem se dava de corpo e alma às causas pelas quais se empenhava.
Conservo-o, intato, na memória, como o conheci, não como agora, como está: morto, definitivamente morto. Revejo-o em cada esquina em que parava para o batepapo amigo e solidário, a conversa regada a sinceridade, já sem o hábito antigo das continências e marchas militares, das ordens e do dever a cumprir, mas com a exata consciência do militar que foi e do homem que deixou de ser em plena madrugada, quando, intensificando a dor dos que o amavam, partiu com a mesma disposição e serenidade com que viu a morte em cada olhar que se nos dirigia, ou, em cada luta que, sem esmorecimentos, travara nos campos de batalha, onde a vida e a morte se conflitavam, no repetido reencontro da guerra contra a paz, do homem contra o inimigo do homem, do amor e do desamor.
Morreu, sem gestos, sem última frase, com amargura nos olhos, aquela amargura que nunca se desfez nos mínimos atos, no olhar que era um misto de ternura e grito de dor, um sorriso, forçado, sem jeito, que, às vezes, era convulsivo pranto, amargura vindo de dentro, rasgando entranhas. Permaneço aqui recordando-o, cheio de vida e amor aos homens. Digo para mim mesmo: "Era um homem bom. Uma figura extraordinária, o coronel". Limito-me à frase, repito-a para todos. No entanto, não o fui ver morto nem o visitei quando adoecera. Não lhe assisti o derradeiro adeus nem ao último suspiro, o definitivo rito de dor. Morto, pálpebras cerradas, mãos cruzadas sobre o peito, eu o reverei sempre, lutando, e sofrendo, mas dando o exemplo: nunca se entregando. Agora, de volta à casa, paro frente à sua, pegada à minha, olho-a e não entro, não entrarei mais para não redescobri-lo, sofrendo, com aqueles gestos, apenas aqueles gestos, que não morrerão jamais. Em todo caso, eu me pergunto: pode haver dor mais forte do que a de não o poder ver mais, nunca mais?
Conquanto seu vizinho, eu o via de longe e à distância, apoiado sobre a janela, cabisbaixo, modo, sem gestos, sem espantos. Calado, sofrendo sem ais e sem protestos. Olhava os que passavam e os cumprimentava, com o habitual aceno com a mão - um adeus que era uma despedida. E olhava-nos, com aquele olhar triste, muito triste, que era só dor. Já não falava. Emudecera, desde o último derrame. Era só aquela amargura no olhar triste, que era um grito de dor a cortar corações. Morreu, ontem, plena madrugada. Era o último suspiro, era o adeus definitivo do homem bom. Deitado, movendo-me na cama, sono intranquilo, pensei comigo:
- Está morto.
Depois, não ouvi mais nada. Nem passos apreensivos nem soluços de dor, nem preces nem o ruído do telefone, chamando, pedindo notícias. Saí, madrugada adentro. Nunca suportei a idéia de vê-lo indiferente aos que o cercavam, deitado, dentro do esquife, os olhos parados insensíveis ao estranho mundo que o fascinava, ao qual tanto amara. Habituara-me a vê-lo, sorrindo, cheio de otimismo, de entusiasmo e amor à vida, voz grossa e grave, a gargalhada gostosa, histórias e casos de espantar, que contava, as lutas que travara, o amor com que o coronel Almerindo Rehem se dava de corpo e alma às causas pelas quais se empenhava.
Conservo-o, intato, na memória, como o conheci, não como agora, como está: morto, definitivamente morto. Revejo-o em cada esquina em que parava para o batepapo amigo e solidário, a conversa regada a sinceridade, já sem o hábito antigo das continências e marchas militares, das ordens e do dever a cumprir, mas com a exata consciência do militar que foi e do homem que deixou de ser em plena madrugada, quando, intensificando a dor dos que o amavam, partiu com a mesma disposição e serenidade com que viu a morte em cada olhar que se nos dirigia, ou, em cada luta que, sem esmorecimentos, travara nos campos de batalha, onde a vida e a morte se conflitavam, no repetido reencontro da guerra contra a paz, do homem contra o inimigo do homem, do amor e do desamor.
Morreu, sem gestos, sem última frase, com amargura nos olhos, aquela amargura que nunca se desfez nos mínimos atos, no olhar que era um misto de ternura e grito de dor, um sorriso, forçado, sem jeito, que, às vezes, era convulsivo pranto, amargura vindo de dentro, rasgando entranhas. Permaneço aqui recordando-o, cheio de vida e amor aos homens. Digo para mim mesmo: "Era um homem bom. Uma figura extraordinária, o coronel". Limito-me à frase, repito-a para todos. No entanto, não o fui ver morto nem o visitei quando adoecera. Não lhe assisti o derradeiro adeus nem ao último suspiro, o definitivo rito de dor. Morto, pálpebras cerradas, mãos cruzadas sobre o peito, eu o reverei sempre, lutando, e sofrendo, mas dando o exemplo: nunca se entregando. Agora, de volta à casa, paro frente à sua, pegada à minha, olho-a e não entro, não entrarei mais para não redescobri-lo, sofrendo, com aqueles gestos, apenas aqueles gestos, que não morrerão jamais. Em todo caso, eu me pergunto: pode haver dor mais forte do que a de não o poder ver mais, nunca mais?
terça-feira, 26 de maio de 2009
ANIVERSARIO DE 109 ANOS DO CORONEL ALMERINDO REHEM
Se vivo fosse, meu pai estaria completando hoje, 26 de maio, 109 anos. Foi um pai excepcional, amigo fiel, militar dedicado, um exemplo a ser admirado e seguido. Uma figura humana rara.
Sinto uma grande honra em ter tido o privilégio de conviver intimamente com ele, de ser seu filho. Não sei se existe um dia, na minha vida, que não me lembre dele, e de muitos momentos que estivemos juntos. A minha admiração por ele transcende o tempo de forma imutável. Que saudade!!!
Quando ele se foi, minha mãe pediu-me que escrevesse algo para colocar na sua sepultura. Pensei e concluí que não poderia expressar, com exatidão, o nosso sentimento, por mais palavras que utilizasse. Assim, optei pela seguinte frase sintética: "Somente os que o conheceram poderão compreender a nossa saudade".
"Comemoro" o seu aniversário com este registro aos seus descendentes e demais familiares. Gostaria que vocês registrassem esta data, e mesmo quando eu não mais estiver por aqui para lembrar, vocês se lembrem com alegria e orgulho.
Beijos,
Denilson Rehem
Sinto uma grande honra em ter tido o privilégio de conviver intimamente com ele, de ser seu filho. Não sei se existe um dia, na minha vida, que não me lembre dele, e de muitos momentos que estivemos juntos. A minha admiração por ele transcende o tempo de forma imutável. Que saudade!!!
Quando ele se foi, minha mãe pediu-me que escrevesse algo para colocar na sua sepultura. Pensei e concluí que não poderia expressar, com exatidão, o nosso sentimento, por mais palavras que utilizasse. Assim, optei pela seguinte frase sintética: "Somente os que o conheceram poderão compreender a nossa saudade".
"Comemoro" o seu aniversário com este registro aos seus descendentes e demais familiares. Gostaria que vocês registrassem esta data, e mesmo quando eu não mais estiver por aqui para lembrar, vocês se lembrem com alegria e orgulho.
Beijos,
Denilson Rehem
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