A revista ISTO É publicou esta entrevista de Camilo Vannuchi. O entrevistado é Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, com Pós-Graduação em administração de empresas pela USP, consultor organizacional e conferencista de renome nacional e internacional.
Em 'Heróis de Verdade', o escritor combate a supervalorização das aparências, diz que falta ao Brasil competência, e não auto-estima.
ISTO É - Quem são os heróis de verdade?
Roberto Shinyashiki -- Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe.
O mundo define que poucas pessoas deram certo.
Isso é uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes.
E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados.
Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu à pena, porque não conseguiu ter o carro, nem a casa maravilhosa.
Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa, possa se orgulhar da mãe.
O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes.
Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros.
São pessoas que sabem pedir desculpas e admitiram que erraram.
ISTO É -O Sr. citaria exemplos?
Shinyashiki -- Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia.
Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis.
Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem.
Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito '100% Jardim Irene'.
É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes.
O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana.
Em países como o Japão, a Suécia e a Noruega, há mais suicídio do que homicídio.
Por que tanta gente se mata?
Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher, que embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego, que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.
ISTO É -- Qual o resultado disso?
Shinyashiki -- Paranóia e depressão cada vez mais precoce.
O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece.
A única coisa que prepara uma criança para o futuro, é ela poder ser criança.
Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas.
Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo .
ISTO É - Por quê?
Shinyashiki -- O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento.
É contratado o sujeito com mais marketing pessoal.
As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência.
Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras.
Disse que ela não parecia demonstrar interesse.
Ela me respondeu estar muito interessada, mas como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas.
Contratei-a na hora.
Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa .
ISTO É - Há um script estabelecido?
Shinyashiki -- Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um presidente de multinacional no programa 'O Aprendiz'?
- Qual é seu defeito?
Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal:
- Eu mergulho de cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar.
É exatamente o que o Chefe quer escutar.
Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido?
É contratado quem é bom em conversar, em fingir.
Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder.
O vice-presidente de uma as maiores empresas do planeta me disse:
'Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir'.
Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor!
ISTO É - Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?
Shinyashiki -Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento.
Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência.
Cuidado com os burros motivados.
Há muita gente motivada fazendo besteira.
Não adianta você assumir uma função, para a qual não está preparado.
Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão.
Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso, para o qual eu não estava preparado.
Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia.
O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.
ISTO É - Está sobrando auto-estima?
Shinyashiki - Falta às pessoas a verdadeira auto-estima.
Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa.
Antes, o ter conseguia substituir o ser.
O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom.
Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser, nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer.
As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam.
E poucos são humildes para confessar que não sabem.
Há muitas mulheres solitárias no Brasil, que preferem dizer que é melhor assim.
Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem
ISTO É -Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?
Shinyashiki -Isso vem do vazio que sentimos.
A gente continua valorizando os heróis.
Quem vai salvar o Brasil? O Lula.
Quem vai salvar o time? O técnico.
Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta.
O problema é que eles não vão salvar nada!
Tive um professor de filosofia que dizia:
'Quando você quiser entender a essência do ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham'. Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia.
Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo.
A gente tem de parar de procurar super-heróis, porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.
ISTO É - O conceito muda quando a expectativa não se comprova?
Shinyashiki - Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado.
A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza.
Não há nada de errado nisso.
Hoje, as pessoas estão questionando o Lula, em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram.
A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.
ISTO É - Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?
Shinyashiki -Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente.
Há várias coisas que eu queria e não consegui.
Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos.
Com uma criança especial, eu aprendi que, ou eu a amo do jeito que ela é, ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse.
Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo.
O resto foram apostas e erros.
Dia desses apostei na edição de um livro, que não deu certo.
Um amigão me perguntou:
'Quem decidiu publicar esse livro?'
Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir.
ISTO É - Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?
Shinyashiki - O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las.
São três fraquezas: a primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança.
Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram.
Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno.
Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards.
Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates.
O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.
ISTO É - Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?
Shinyashiki - A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade...
A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se eles não tivessem significados individuais.
A segunda loucura é:
Você tem de estar feliz todos os dias.
A terceira é:
Você tem que comprar tudo o que puder. O resultado é esse consumismo absurdo.
Por fim, a quarta loucura:
Você tem de fazer as coisas do jeito certo.
Jeito certo não existe.
Não há um caminho único para se fazer as coisas.
As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade.
Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito.
Tem gente que diz que não será feliz, enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento.
Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou com amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo à praia ou ao cinema..
Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais.
Todos os dias morriam nove ou dez pacientes.
Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte.
A maior parte pega o médico pela camisa e diz:
'Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei à vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz'.
Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas.
Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida.
--
"Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "NÃO". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
- Fernando Pessoa
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Notícias da Chapada

....
Sempre digo, desde que a conheci, que a Chapada Diamantina é um lugar especial do planeta. Continuo com o mesmo pensamento. Os passeios são maravilhosos e o Capão ainda é um sítio onde se exercita a essencialidade. Acesso ruim, as casas ficam no meio do mato, estradas e ruas de terra e buracos, muita poeira, grandes distâncias, não pega celular, e todos felizes da vida!!! Parece que o magnetismo da região hipnotiza a todos, que com "pouco" de abastecem de muito ânimo e alegria.
O calcanhar às vezes incomoda mas tem se portado muito bem. Fizemos várias caminhadas no Capão e em Lençóis, sem guia, no único dia que lá passamos fomos ao Ribeirão do Meio e ao Serrano. Muuuiiiiiiito bom!
O niver foi ótimo. Fomos a um restaurante italiano com mesas na rua (tipo pelourinho, só que com tranquilidade total e um ótimo astral) e comemos uma excelente massa e tomamos um vinho delicioso!
Que bom saber que está tudo bem com os filhos, e filhos bichos. rsrsrs
Ontem dirigi de Lençóis a Aracaju, uma bela esticada de 10 horas. Ufa!!! O picasso, como sempre, com aquela performance e conforto.
Chegamos quase às 19 horas, avisamos a Branquino da nossa chegada, tomamos um bom banho, atravessamos a rua e bem defronte do Hotel Tropical Praia, onde estamos, encontramos o restaurante República do Camarão. Foi quase uma orgia de camarão, delicioso!!!
E assim, estamos passando as nossas férias, em lugares simples porém muito especiais. No domingo deveremos estar retornando para Guarajuba.
Tome conta dos baixinhos!
Bjos e saudades,
Rehem e Lica
sábado, 22 de agosto de 2009
Dudu no seu primeiro dia de aula
domingo, 9 de agosto de 2009
Feliz DIas dos PAIS!!!
Pai é Pai !
Pode ser novo, pode ser velho
Pode ser branco, negro ou amarelo
Pode ser rico ou pobre
Pode ser solteiro, casado, viúvo ou divorciado
Pode ser feliz ou infeliz
Pode estar aqui ou já ter ido embora
Pode ter tido filhos ou adotado-os
Pode ter casa ou morar na rua
Pode usar terno ou tanga
Pode ser Deus ou humano
Pode estar trabalhando ou desempregado
Pode ser tanta coisa ou simplesmente PAI
Mas todos, sem faltar um sequer fazem parte da criação.
Que não só hoje, mas em todos os dias desta vida
possa ser lembrado como aquele
que muitas vezes não dormiu
muitas vezes ficou pensando na comida para levar para casa
muitas vezes engoliu sapos
muitas vezes chorou escondido
muitas vezes gargalhou
muitas vezes perdeu a hora
mas nunca deixou de pensar na coisa mais importante da sua vida. NÓS!!!!
Pode ser novo, pode ser velho
Pode ser branco, negro ou amarelo
Pode ser rico ou pobre
Pode ser solteiro, casado, viúvo ou divorciado
Pode ser feliz ou infeliz
Pode estar aqui ou já ter ido embora
Pode ter tido filhos ou adotado-os
Pode ter casa ou morar na rua
Pode usar terno ou tanga
Pode ser Deus ou humano
Pode estar trabalhando ou desempregado
Pode ser tanta coisa ou simplesmente PAI
Mas todos, sem faltar um sequer fazem parte da criação.
Que não só hoje, mas em todos os dias desta vida
possa ser lembrado como aquele
que muitas vezes não dormiu
muitas vezes ficou pensando na comida para levar para casa
muitas vezes engoliu sapos
muitas vezes chorou escondido
muitas vezes gargalhou
muitas vezes perdeu a hora
mas nunca deixou de pensar na coisa mais importante da sua vida. NÓS!!!!
Coisas de Andrei
Inspirado pelo clássico Pinóquio que acabávamos de assistir na TV, no qual o Gepetto tem seu desejo atendido pela Fada Azul e seu filho torna-se um menino de verdade, Andrei levanta decidido dirigindo-se à varanda dizendo "vou fazer um desejo". Fiquei observando, intrigado. Ele abre a cortina, olha para as estrelas e solta:
"Desejo ganhar todos os bonecos do McLanche".
Caímos na gargalhada! Bela forma de terminar o Dia dos Pais!
"Desejo ganhar todos os bonecos do McLanche".
Caímos na gargalhada! Bela forma de terminar o Dia dos Pais!
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Bruninho - 10 meses
Vô Rehem, Bruninho e Vó Lica
Exatos 10 meses se passaram desde que esse porretinha nasceu. Agora não dá para imaginar a vida sem ele...
Que sua vida seja repleta de saúde e felicidade, pequeno. Amamos você!
sábado, 4 de julho de 2009
O grande Luiz Gama
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Oi famíla!!
domingo, 21 de junho de 2009
DISCURSO DE DESPEDIDA
Meus amigos,
Meditei muito sobre o que dizer a vocês neste instante. Tudo o que vinha à minha mente parecia não satisfazer. Sempre insuficiente. Convenci-me então que seria impossível transformar em palavras tudo aquilo que sinto.
Liguei o rádio e coincidentemente ouvi Caetano Veloso a cantar a sua poesia, provocando em mim um momentâneo sentimento de inveja. Senti-me pequeno demais diante deste gesto de vocês, e sem palavras à altura para retribuir. Mas, se amizade é um encontro no meio do caminho, vocês não poderiam esperar de mim aquilo que não posso dar. Um simples olhar pode significar muito mais do que um monte de palavras. Por mais que eu diga, nunca ficarei satisfeito, nunca transmitirei exatamente aquilo que gostaria.
Interessante como os opostos se atraem. Estamos reunidos em virtude da volta e vêm-me à mente os momentos que antecederam a nossa vinda. Lembro-me da última noite que passamos em Salvador. Perdi o sono e comecei a analisar o passado e fazer conjecturas sobre o futuro. Tudo estava arrumado para a viagem, e eu, que nunca imaginei sair de Salvador, estava prestes a enfrentar um mundo totalmente desconhecido. Olhei para a minha mulher e o meu filho Serge. Ambos dormiam e este último, na inocência dos seus cinco meses, nem sequer pôde ser consultado sobre a decisão tomada. Veio-me então uma profunda indecisão. Afinal, seríamos felizes? Valeria à pena partir do conhecido para o obscuro? Que tipo de pessoas viríamos a conhecer? E amigos, quantos e como?
Lembrei-me então do meu melhor amigo, meu pai, já falecido, mas sempre vivo em nossas mentes, pela grandeza da sua humildade, seu coração, seus gestos e seus ensinamentos. Vi com que amadurecimento encarava estar a nossa casa cheia ou vazia de pessoas, coincidindo com os períodos nos quais ocupava, ou não, cargos de relevância. Como toda criança, tinha a maior admiração por ele. Só que esta admiração ainda cresce à medida em que os anos passam. Com ele aprendi que devemos assumir cargos nos preparando para a saída. Devemos aceitá-los sempre imaginando-os como roupas feitas para pessoas maiores do que nós, e prepararmo-nos para, a qualquer momento, quando da chegada do seu dono, retirá-las sem sentir a sensação de que estamos despidos. Afinal, aquela roupa não nos pertence e coube-nos vesti-la somente durante determinado tempo.
A noite arrastava-se e, por fim, entre cochilos constatei que havia amanhecido. Era o momento de seguir para o aeroporto. Lá, nem mesmo os pêsames pela mudança faltaram. Coração partido de saudade, apreensivo, mas ainda assim, havia lugar para esperança e fé. Ione, coitada, quase desidratada de tanto chorar. Chegamos a Brasilia e fui imediatamente absorvido pelas novas atividades. De repente vi-me diante de muita gente também apreensiva, e , naturalmente curiosa quanto à minha pessoa. Era a minha posse como Chefe de Gabinete da Secretaria da Agricultura e Produção e eu pensei : o que estaria fazendo no meio de tanta gente desconhecida? Confesso, hoje, que tive vontade de tomar o primeiro avião e retornar à minha cidade natal. Pior que tudo é que todos esperavam as minhas primeiras palavras e eu quase nada tinha a dizer. Preferi, naquela oportunidade, afirmar laconicamente que o meu discurso “seria o mais longo de todos, com duração prevista para cinco anos, e transmitido no dia-a-dia de convívio”. É verdade que não cheguei aos cinco anos. Completei 2 anos e 7 meses no dia quatro próximo passado. E o que não consegui dizer, neste período, não é agora, em poucos minutos, que vou ter êxito. Considerem como discursos de posse e despedida, todos os atos por mim praticados. Por eles deverei ser julgado e não tenho tempo, agora, para fazer remendos.
Assumo todos os meus erros. Brasilia, para mim, é uma passagem inesquecível, e se hoje tivesse que tomar nova decisão, sem dúvida, seria a mesma: Viria! Se é verdade que passei dificílimas horas, somente um momento como este compensaria ter vindo. Nada mais de positivo seria necessário. Bastaria agora! Três sentimentos talvez melhor representem a síntese deste instante: emoção, esperança e saudade.
Sobre cada um deles escolhi um pensamento o os transmito a vocês como mensagem:
Emoção: “Aquele que transforma em beleza todas as emoções, sejam de melancolia, de tristeza, prazer ou dor, vive em perpétua alegria.” José Pereira da Graça Aranha
Esperança: “Esperança é uma mão misteriosa que nos aproxima do que desejamos e nos afasta do que temos.” Severo Catalina
Saudade: “O perfume da saudade é como o de certas flores, que só se percebe quando de longe o recebemos. Se, iludidos o tentamos aspirar de perto, dissipa-se.” Julio Diniz
Este momento jamais será esquecido, pois, quando deixo, definitivamente, a presidência da Fundação Zoobotânica do Distrito Federal, definitivamente vocês ingressam em nossos corações. E isso só foi possível através da confiança em mim depositada pelo secretário Pedro Dantas e pelo governador Elmo Farias, aos quais registro os meus profundos agradecimentos.
Quero, por fim, agradecer especialmente as bondosas palavras há pouco proferidas pelo Dr. Jésus Manzan, representando todos os servidores da Fundação, fazendo minhas as palavras do Ex-Presidente Emilio Garrastazu Médici, ditas recentemente, quando da passagem dos seus 71 anos: “Esta homenagem é mais pela generosidade de vocês do que pelo merecimento do homenageado.”
Muito obrigado!
Discurso proferido por Denilson Rehem, ao deixar a presidência da Fundação Zoobotânica do Distrito Federal – FZDF. (Churrascaria do Lago – Brasilia/DF, 10 de dezembro de 1976)
Meditei muito sobre o que dizer a vocês neste instante. Tudo o que vinha à minha mente parecia não satisfazer. Sempre insuficiente. Convenci-me então que seria impossível transformar em palavras tudo aquilo que sinto.
Liguei o rádio e coincidentemente ouvi Caetano Veloso a cantar a sua poesia, provocando em mim um momentâneo sentimento de inveja. Senti-me pequeno demais diante deste gesto de vocês, e sem palavras à altura para retribuir. Mas, se amizade é um encontro no meio do caminho, vocês não poderiam esperar de mim aquilo que não posso dar. Um simples olhar pode significar muito mais do que um monte de palavras. Por mais que eu diga, nunca ficarei satisfeito, nunca transmitirei exatamente aquilo que gostaria.
Interessante como os opostos se atraem. Estamos reunidos em virtude da volta e vêm-me à mente os momentos que antecederam a nossa vinda. Lembro-me da última noite que passamos em Salvador. Perdi o sono e comecei a analisar o passado e fazer conjecturas sobre o futuro. Tudo estava arrumado para a viagem, e eu, que nunca imaginei sair de Salvador, estava prestes a enfrentar um mundo totalmente desconhecido. Olhei para a minha mulher e o meu filho Serge. Ambos dormiam e este último, na inocência dos seus cinco meses, nem sequer pôde ser consultado sobre a decisão tomada. Veio-me então uma profunda indecisão. Afinal, seríamos felizes? Valeria à pena partir do conhecido para o obscuro? Que tipo de pessoas viríamos a conhecer? E amigos, quantos e como?
Lembrei-me então do meu melhor amigo, meu pai, já falecido, mas sempre vivo em nossas mentes, pela grandeza da sua humildade, seu coração, seus gestos e seus ensinamentos. Vi com que amadurecimento encarava estar a nossa casa cheia ou vazia de pessoas, coincidindo com os períodos nos quais ocupava, ou não, cargos de relevância. Como toda criança, tinha a maior admiração por ele. Só que esta admiração ainda cresce à medida em que os anos passam. Com ele aprendi que devemos assumir cargos nos preparando para a saída. Devemos aceitá-los sempre imaginando-os como roupas feitas para pessoas maiores do que nós, e prepararmo-nos para, a qualquer momento, quando da chegada do seu dono, retirá-las sem sentir a sensação de que estamos despidos. Afinal, aquela roupa não nos pertence e coube-nos vesti-la somente durante determinado tempo.
A noite arrastava-se e, por fim, entre cochilos constatei que havia amanhecido. Era o momento de seguir para o aeroporto. Lá, nem mesmo os pêsames pela mudança faltaram. Coração partido de saudade, apreensivo, mas ainda assim, havia lugar para esperança e fé. Ione, coitada, quase desidratada de tanto chorar. Chegamos a Brasilia e fui imediatamente absorvido pelas novas atividades. De repente vi-me diante de muita gente também apreensiva, e , naturalmente curiosa quanto à minha pessoa. Era a minha posse como Chefe de Gabinete da Secretaria da Agricultura e Produção e eu pensei : o que estaria fazendo no meio de tanta gente desconhecida? Confesso, hoje, que tive vontade de tomar o primeiro avião e retornar à minha cidade natal. Pior que tudo é que todos esperavam as minhas primeiras palavras e eu quase nada tinha a dizer. Preferi, naquela oportunidade, afirmar laconicamente que o meu discurso “seria o mais longo de todos, com duração prevista para cinco anos, e transmitido no dia-a-dia de convívio”. É verdade que não cheguei aos cinco anos. Completei 2 anos e 7 meses no dia quatro próximo passado. E o que não consegui dizer, neste período, não é agora, em poucos minutos, que vou ter êxito. Considerem como discursos de posse e despedida, todos os atos por mim praticados. Por eles deverei ser julgado e não tenho tempo, agora, para fazer remendos.
Assumo todos os meus erros. Brasilia, para mim, é uma passagem inesquecível, e se hoje tivesse que tomar nova decisão, sem dúvida, seria a mesma: Viria! Se é verdade que passei dificílimas horas, somente um momento como este compensaria ter vindo. Nada mais de positivo seria necessário. Bastaria agora! Três sentimentos talvez melhor representem a síntese deste instante: emoção, esperança e saudade.
Sobre cada um deles escolhi um pensamento o os transmito a vocês como mensagem:
Emoção: “Aquele que transforma em beleza todas as emoções, sejam de melancolia, de tristeza, prazer ou dor, vive em perpétua alegria.” José Pereira da Graça Aranha
Esperança: “Esperança é uma mão misteriosa que nos aproxima do que desejamos e nos afasta do que temos.” Severo Catalina
Saudade: “O perfume da saudade é como o de certas flores, que só se percebe quando de longe o recebemos. Se, iludidos o tentamos aspirar de perto, dissipa-se.” Julio Diniz
Este momento jamais será esquecido, pois, quando deixo, definitivamente, a presidência da Fundação Zoobotânica do Distrito Federal, definitivamente vocês ingressam em nossos corações. E isso só foi possível através da confiança em mim depositada pelo secretário Pedro Dantas e pelo governador Elmo Farias, aos quais registro os meus profundos agradecimentos.
Quero, por fim, agradecer especialmente as bondosas palavras há pouco proferidas pelo Dr. Jésus Manzan, representando todos os servidores da Fundação, fazendo minhas as palavras do Ex-Presidente Emilio Garrastazu Médici, ditas recentemente, quando da passagem dos seus 71 anos: “Esta homenagem é mais pela generosidade de vocês do que pelo merecimento do homenageado.”
Muito obrigado!
Discurso proferido por Denilson Rehem, ao deixar a presidência da Fundação Zoobotânica do Distrito Federal – FZDF. (Churrascaria do Lago – Brasilia/DF, 10 de dezembro de 1976)
segunda-feira, 15 de junho de 2009
HOMENAGEM AO MEU AVÔ
Confesso que às vezes fico imaginando como deve ser a vida depois da morte, como será viver no céu? Sem problemas, sem confusão, sem desentendimentos, sem bebidas ou cigarros, sem corridas de motos ou jogos de cartas, sem possibilidade de ler a revista playboy ou sexy, creio que não vou me acostumar com essa rotina pacata, tranqüila e serena.
Também não sei se quando morrer terei um lugar garantido por lá, porém estou tentando fazer minha parte por aqui, confesso que é difícil, mais na hora do balanço geral tenho quase certeza que terei saldo positivo e ingresso garantido para acesso na paz celestial.
Algum tempo atrás tinha duvidas se iria me adaptar sem bebidas, cigarros, motos ou meu joguinho de baralho, cheguei a pensar e imaginar que melhor seria a opção pela farra noturna, bagunça e coisas do ramo.
Depois de muito pensar, pude concluir que o principal, atual e decisivo motivo pelo qual eu gostaria de ir viver no céu é ter a oportunidade de reencontrar com um homem que muito marcou minha vida, o coronel Almerindo Rehem, meu avô com muito orgulho.
Honestidade, dignidade, solidariedade humana e amor a família, foram seus maiores exemplos aqui na terra, sempre sorridente, era para todos os amigos um paradigma da felicidade, amizade, fidelidade e alegria.
Lembro-me, com muita emoção, do nosso ultimo encontro. Era o dia 08/04/1969 e ele muito enfermo, na cama, acordou muito nervoso e chorando, como a implorar por alguma coisa que ninguém conseguia decifrar. Foi um dia longo, tenso e doloroso para toda família, até por volta das 16:00 horas quando cheguei em frente ao seu leito e num alto grito de emoção ele conseguiu balbuciar: “CAMAGO”.
Todos imediatamente entenderam que meu querido avô sabia, ninguém sabe como, que era o dia do meu aniversário.
Perdi um avô maravilhoso aqui na terra, mas seguramente, neste exato instante, ao lado do também coronel Antônio Guimarães (meu sogro), está ele em reunião pregando e difundindo o amor verdadeiro; e Jesus, assistindo a tudo, dirá por certo, sorrindo, a São Pedro: “Quando o neto do coronel Almerindo Rehem chegar, pode deixar entrar”.
Carlos Magno Rehem Dantas (Camago)
Salvador/BA, 15/06/2009
Também não sei se quando morrer terei um lugar garantido por lá, porém estou tentando fazer minha parte por aqui, confesso que é difícil, mais na hora do balanço geral tenho quase certeza que terei saldo positivo e ingresso garantido para acesso na paz celestial.
Algum tempo atrás tinha duvidas se iria me adaptar sem bebidas, cigarros, motos ou meu joguinho de baralho, cheguei a pensar e imaginar que melhor seria a opção pela farra noturna, bagunça e coisas do ramo.
Depois de muito pensar, pude concluir que o principal, atual e decisivo motivo pelo qual eu gostaria de ir viver no céu é ter a oportunidade de reencontrar com um homem que muito marcou minha vida, o coronel Almerindo Rehem, meu avô com muito orgulho.
Honestidade, dignidade, solidariedade humana e amor a família, foram seus maiores exemplos aqui na terra, sempre sorridente, era para todos os amigos um paradigma da felicidade, amizade, fidelidade e alegria.
Lembro-me, com muita emoção, do nosso ultimo encontro. Era o dia 08/04/1969 e ele muito enfermo, na cama, acordou muito nervoso e chorando, como a implorar por alguma coisa que ninguém conseguia decifrar. Foi um dia longo, tenso e doloroso para toda família, até por volta das 16:00 horas quando cheguei em frente ao seu leito e num alto grito de emoção ele conseguiu balbuciar: “CAMAGO”.
Todos imediatamente entenderam que meu querido avô sabia, ninguém sabe como, que era o dia do meu aniversário.
Perdi um avô maravilhoso aqui na terra, mas seguramente, neste exato instante, ao lado do também coronel Antônio Guimarães (meu sogro), está ele em reunião pregando e difundindo o amor verdadeiro; e Jesus, assistindo a tudo, dirá por certo, sorrindo, a São Pedro: “Quando o neto do coronel Almerindo Rehem chegar, pode deixar entrar”.
Carlos Magno Rehem Dantas (Camago)
Salvador/BA, 15/06/2009
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